terça-feira, 29 de novembro de 2011

Versos íntimos ( Augusto dos Anjos )

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Sómente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

domingo, 27 de novembro de 2011

Poetisa

A poesia dos ventos
A poesia feita por ela
Soprou branda no ouvido

Ela sabe o que gosto de escutar
E sabe onde gosto de dormir
E me sopra

Completa meu copo quando me olha
Derrama meu medo quando me toca

Seu excesso é meu vício
O meu delírio é sua chave
E me guarda

No bolso e no colo
Eu me calo
E fico bem guardado.

sábado, 19 de novembro de 2011

Chama, calor .

Fiz meu fogo
Aqueci meu peito
Admirei a chama
Separei as cinzas
Joguei na lama
Briguei com o vento
Não fui atento
Quase apagou
Mas cresceu
Irregular
Abstrato
Revelador
Cortou meu frio
E sem aviso
Você chegou
Trouxe mais fogo
E me negou
Mas não durou
Veio aclamar
Veio sentir
Como eu consigo
Pouco fogo
Pouco abrigo
Um grande calor.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Desculpe-me pelo quase

Devagar
Quase fui lá
Quase voltei
Quase menti
Quase chorei
Quase sonhei
Quase acordei
Quase vivi
Quase comi
Quase enjoei
Quase acabei
Quase engoli
Quase olhei
Quase guardei
Quase cantei
Quase traí
Quase senti
E no quase fingi
Te conheci
Quase acreditei
Quase apaixonei
Quase entreguei
Quase consegui
Depois que entendi
Quase sofri
Quase amei
Quase morri.

Doce carinho

É coisa mais forte
É quando eu te sinto
Rosto menina
Cheiro e cor
Olhos e cabelos
Cheiro de mato
E de tudo molhado
Às vezes de flor
Voz tímida de alegria
Bem baixinha
Creio ser só minha
Creio ser só minha
Doce carinho
Momento carinho
Lugar distante
Beleza presente
Dentro de mim
Você fica e a calma vem
Dentro de mim
Doce carinho
Teu jeito
Teu jeitinho
Teu olhar
Teu carinho
Doce carinho.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Lembranças de um cigarro

No momento certo da viagem
No calor exato da coragem
Na calma triste do sofrimento
E a certeza cara do arrependimento
O dia lindo acabado em pranto
Mãos distantes do carinho e do acolhimento
Atrás apenas de algo raro
Cuidando e sempre atento
Foi claro seu beijo sem medo
Seu beijo sem contato
Seu amor estacionado
Sua lembrança
Seu silêncio.