Depois de
alguns dias bebendo cachaças baratas, um homem segue na luz do dia atrás de sua
nova companheira, é um novo tipo de procura e de encontro, geralmente ele
espera, mesmo que ansioso, a lua chegar para saciar algo dentro de si, mas o controle
sobre seu corpo e sua mente está enfraquecido. É de cachaça que ele precisa,
nada mais. As expectativas, arquitetadas com zelo, afundaram-se em dramas
confusos, sem soluções objetivas. E ele nunca mais retornaria à sua
residência, e assim passaram-se anos.
As
concretizações tão sonhadas não chegaram, o carisma que o diferenciava de
muitos, afundou nos decorados copos dos bares por toda a cidade, e uma vida que
já foi plena em variados sentidos e momentos, tornou-se apenas pano de fundo
para a tragédia.
Vê-lo
caminhar remetia a ideia de pobreza fúnebre e irreparável, um caso clínico,
crônico e sem cura. Não havia mais vontade própria que o levasse a iniciar um
processo de reparação e renovação tão desejado pelos familiares – os que ainda lembravam-se
do seu sorriso matinal que arrancava gargalhadas – e ex-namorada, essa que não
sabia mais se ainda tinha algum vínculo, que não fosse tristeza, na vida
perpetuamente desfigurada do agora, bêbado deprimente e fétido.
Os vizinhos
só o direcionavam a palavra aos gritos, com ofensas desumanas, quando ele
chegava minutos antes do nascer do sol e caía nas calçadas alheias bloqueando a
saída dos carros das garagens. Cenas desmoralizantes repetiam-se diariamente,
aqui e ali, envolvendo fulano e ciclano com o bêbado mal cheiroso. Para onde
vai essa alma senhor? Perguntava com tom de superioridade, um velho amigo de
copo que conseguiu controlar o vício depois de começar a frequentar a igreja
protestante do bairro.
A vida do
homem que entregou-se à bebida tornou-se exemplo de derrota, imoralidade,
descrença, fraqueza, sujeira e mais diversos adjetivos infames, uma verdade
sobre o que acontece com quem não tem Deus ou dinheiro, ou não busca ambos.
Os olhares
das crianças claramente hipnotizavam-no. Mas num domingo bem cedo, um casal e
seu filho estavam na praça de um bairro muito tranquilo, a criança chutava a
bola para o pai e vice-versa, quando o brinquedo foi parar perto do homem mais
indesejado da cidade. Aproximou-se a criança sem nenhum tipo de reação
repressora e perguntou ao desvalido ser algo verdadeiramente intrigante:
- Você quer
tomar banho na minha casa?
O homem
sorriu depois de uma década sem mexer a boca - foi tão espontâneo e bonito - ,
e quando preparava-se para responder, o pai da criança veio correndo
enlouquecidamente, com olhar de bicho, jogou o filho nos braços, cobrindo o
rosto da tão amada cria e resmungando disse:
- Nunca mais
aproxime-se dele, isso não é gente!
O bêbado
ainda sorrindo ouviu as palavras doutrinadoras do pai do pequeno menino como
uma rajada da metralhadora mais potente.
E seu corpo
foi encontrado sem vida na manhã seguinte fedendo um pouco mais que de costume.