quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

É o Estado das coisas

Talvez em vida vejas sempre os pássaros
Voando, voando e voando
Talvez queiras juntar-se a eles num voo
Apenas num voo
Sabes que não poderá fazer
E que as asas não são para você
Mas sabes quais asas são as que tu desejas?
Se desejas...
As que provocam os sonhos?
Ou as que destroem os sonhos?
Sabes que não é preciso voar
Não é possível...
O que queres afinal?
Um Estado das coisas que o permita voar?
Ou não quer nada que não saiba lidar?
Em vida precisarás do sonho de voar
Muito mais do que o sonho de ficar
Mas não pensas apenas em observar do chão
Já os pássaros
Eles simplesmente voam
E quando sonhas com a sua liberdade como num voo
Você simplesmente sonha.



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Para quando acordares sem música

Primeiramente abrir as janelas
Deixar entrar, pousar, tocar...
Num canto logo se acomodar
Fazer um café para conversar
Promover a canção...
Um solo de saudade
Um refrão bobo
Sorrir por dentro do riso frouxo
Comer bolacha e pão
Rimar com o tempo...
Transformar, transportar, musicar...
Afinar a manhã no tom da manhã
Desafinar tristeza
Semear só nossa canção...
Tu gostará
O amigo te acompanhará
Será simples e vais continuar...
O dia começará assim
Com luz, café, comida, poesia, música, amizade...
...conforto, simpatia e celebração
Promulgar essa canção para cada manhã
Condenar o silêncio
E o cuidado em abrir as janelas amanhã de manhã.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pós-energúmeno

Tropeças em vã solidão amada
E nela debruças
São suas as fraquezas sobre o chão quente
Espera a pele derreter
Nem para enxugar tua condenação tu serves
Frouxo sem solidez que sirva não pensas
Ficarás imóvel nessa fossa
Teus olhos não mais enxergam
E não sentes o cheiro de merda
Sereno momento
Sem respostas no espelho
É quase um morto
Não abres mais a boca
Não me ouve, nem com gritos
Estás morto?
Não sei o que és agora
Só carne? Só desgosto?
Mate para não morrer
Sei que não estás louco
Limpe essa porcaria psicológica

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sangrador

E o sangue pinga na pia
Pinga no chão
Pinga no colchão
Colore tudo
Enche a mão
Sangue frio ou sangue quente
É tudo da ferida funda inquieta
É sangue
É cheiroso
É dor certa
Fascinante conta-gotas da fatalidade
Morte útil do rancor
Trilha vermelha da tragédia
Cheio de paixão
Eu canto triste
Para sangrar devagar
Sem cicatriz
Para não marcar
Quero que pingue
Quero chorar
Quero nadar...


Seus sorrisos...


Seus sorrisos foram tão largos
Que fizeram tua boca dobrar de tamanho
E poderias até engolir a minha
E meus desconfortáveis dias anteriores
Tudo de bom poderia fazer a tua boca enfeitada de beleza
São bocas assim que ofuscam a tristeza
E provocam beijos cheios
Línguas famintas por línguas adormecidas
E a liberdade de babar em outra boca
Sem palavras porcas
Fazer romance num choque de lábios
Poderias achar teu bom silêncio calando-me a boca
Com a sua...




sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Surto sutil

Entrei pela única porta que estava aberta
Sentei no único assento disponível
Toquei no único objeto que ali encontrava-se
Um lugar realmente intrínseco
Um desconhecido íntimo
A única voz audível apresentava-se unicamente bela
Vi uma sombra aproximar-se
Da única pessoa que poderia conversar comigo
Único momento de sobriedade
Despertando-me do real
Único momento de alívio
Única arma para matar-me
Antes de ser único.






domingo, 13 de janeiro de 2013

Palavras mortas

Não vai sobrar nada de vaidade
Nem verdade
Não vai sobrar nada
Não vai sobrar e nem pode
Não há sobra que não me afogue
Nem sobra que traga sorte
Nunca tive
Nessa sobra não há norte
Na sobra sinto a morte
Na sobra o fraco leva o corte
Na sua sobra eu sou o corte
Na sobra não tenho força
Na sobra não tenho escolha
Na sobra só vejo sobra
Na sobra sou o que morre.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O bêbado


Depois de alguns dias bebendo cachaças baratas, um homem segue na luz do dia atrás de sua nova companheira, é um novo tipo de procura e de encontro, geralmente ele espera, mesmo que ansioso, a lua chegar para saciar algo dentro de si, mas o controle sobre seu corpo e sua mente está enfraquecido. É de cachaça que ele precisa, nada mais. As expectativas, arquitetadas com zelo, afundaram-se em dramas confusos, sem soluções objetivas. E ele nunca mais retornaria à sua residência, e assim passaram-se anos.
As concretizações tão sonhadas não chegaram, o carisma que o diferenciava de muitos, afundou nos decorados copos dos bares por toda a cidade, e uma vida que já foi plena em variados sentidos e momentos, tornou-se apenas pano de fundo para a tragédia.
Vê-lo caminhar remetia a ideia de pobreza fúnebre e irreparável, um caso clínico, crônico e sem cura. Não havia mais vontade própria que o levasse a iniciar um processo de reparação e renovação tão desejado pelos familiares – os que ainda lembravam-se do seu sorriso matinal que arrancava gargalhadas – e ex-namorada, essa que não sabia mais se ainda tinha algum vínculo, que não fosse tristeza, na vida perpetuamente desfigurada do agora, bêbado deprimente e fétido.
Os vizinhos só o direcionavam a palavra aos gritos, com ofensas desumanas, quando ele chegava minutos antes do nascer do sol e caía nas calçadas alheias bloqueando a saída dos carros das garagens. Cenas desmoralizantes repetiam-se diariamente, aqui e ali, envolvendo fulano e ciclano com o bêbado mal cheiroso. Para onde vai essa alma senhor? Perguntava com tom de superioridade, um velho amigo de copo que conseguiu controlar o vício depois de começar a frequentar a igreja protestante do bairro.
A vida do homem que entregou-se à bebida tornou-se exemplo de derrota, imoralidade, descrença, fraqueza, sujeira e mais diversos adjetivos infames, uma verdade sobre o que acontece com quem não tem Deus ou dinheiro, ou não busca ambos.
Os olhares das crianças claramente hipnotizavam-no. Mas num domingo bem cedo, um casal e seu filho estavam na praça de um bairro muito tranquilo, a criança chutava a bola para o pai e vice-versa, quando o brinquedo foi parar perto do homem mais indesejado da cidade. Aproximou-se a criança sem nenhum tipo de reação repressora e perguntou ao desvalido ser algo verdadeiramente intrigante:
- Você quer tomar banho na minha casa?
O homem sorriu depois de uma década sem mexer a boca - foi tão espontâneo e bonito - , e quando preparava-se para responder, o pai da criança veio correndo enlouquecidamente, com olhar de bicho, jogou o filho nos braços, cobrindo o rosto da tão amada cria e resmungando disse:
- Nunca mais aproxime-se dele, isso não é gente!
O bêbado ainda sorrindo ouviu as palavras doutrinadoras do pai do pequeno menino como uma rajada da metralhadora mais potente.
E seu corpo foi encontrado sem vida na manhã seguinte fedendo um pouco mais que de costume. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Em carne amar



Parando nas pontas dos lábios
Puxo mais um pedaço
E vejo os muros brancos
Evitando teu grito automático
O costumeiro e falso alarme
Não deveras prometer com essa boca
Parecerá promessa de fachada
E nada aproveitarás dessa espuma de raiva
Quando cederes um pouco da tua carne
Não me farás de louco nem de traste
Tampouco me contentarei só com o teu biquinho
Quando o que quero é banhar-te
Com a língua e outras partes
Pelo céu da tua boca
Arrepiando os pêlos das variadas partes
Feito um imã de orgasmos belamente invasivos
Causando um estranho frio
Aquecendo nossa mútua ferocidade
Quando deleitar-me com a cabeça no meio das suas coxas
Teus gritos não terão escolha
Chamando-me para dentro
E para fora da sanidade.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Quase versos livres



Os olhares tristes das bocas sorridentes
Os abraços firmes das mãos frias e carentes
As palavras lindas das mentes dependentes
A postura elegante de uma vida solitária
O amor apreciado por corpos sujos
Indignos de crenças de absurdos
Toda época farsante e falsária
Todo poder gerador de demências
Toda demência glorificada
Toda vontade regulada
Os moldes da manutenção nas gestantes
Crianças livres e isoladas
Lembranças de pássaros voadores
Lembranças de indivíduos pensadores
Lembranças condenadas
Fé e felicidade nas esquinas distantes
A dor repugnante
O medo do abalo que maltrata
A força dos braços construtores
As grandes obras dos vingadores
A casa simples nas ondas da enxurrada
O conhecimento inalcançável nas estantes
A revolta crônica do não ser nada
O nada ser material-mente
É nada ser na falta de uma prata.