sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Furto.

Em qualquer ausência que provocas
Ou no triste fato da sua ausência provocar-me agonia
Ou depois de tanta agonia você permanecer ausente e provocativa
Você é permanentemente minha
Só minha quando eu trato-me com descaso
E da rotina ausento-me
Ofuscando-me do dia por uma enfermidade duvidosa
Sinto-te sim
Acariciando minha vida com pauladas furiosas
E há quem diga, pensando conhecer-me:
Ele gosta!
E se não gostasse, não repetiria!
E assim o furto acontece
Mais um sorriso, por mais curto, desaparece!
E não há câmeras para registrar a ação bandida
O ilícito drama que condena minha alegria

Não pode ser crime atrás das paredes frias da minha casa.

domingo, 18 de agosto de 2013

Solitário

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-- Velho caixão a carregar destroços --

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


                                                      Augusto dos Anjos

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Traição

Traí uma parte de mim
Aquela que destaca o humor
A que organiza toda a tragédia
Que faz dela teatro sublime
E tem costume de decorá-la
A que faz ganhar e ganhar
Perder e perder tempo
A confusa dose dupla do momento
Os gestos calculados de quem ama
De quem quer ser amado
O desejo de ser modelado e talvez mais bonito
Repetido e repetindo
Eu traí minha lembrança para entender o que foi dito
Traí até quem ama e quem foi desamado, como eu
Traí convicto.



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quando vier a Primavera...

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.
 


                                                    Alberto Caeiro