Solista tu viraste quando entregastes ao meu recital,ao meu musical
colocaste sobre ele um único instante a tantos festivais
pela bela nota soluçastes
pela minha prosa se apoiastes
pelo carinho do som da minha voz se completou
como acreditar que és um músico se nunca mais tocastes
como esperar o som do piano se foges para tocar o velho blues
mas em outros simples solos me tocastes
e sabes bem do que somos capazes de
agora em diante um novo tom.
Renata Celli
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Vinho inútil
Não sei medicar-me nessa noite
Minha doença atinge além do meu corpo
Mesmo banhado pelo meu vinho predileto
Não consigo fazer-me outro
Sinto-me um bicho acuado
Pedindo consolo
Estou mais preso que solto
No meu próprio desconforto
Carregarei meu choro
E dele hidratar-me-ei
Com mais choro
Logo será logo
Enquanto isso, continuarei
Até ficar vazio
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
À bebida forte
Para tanto que me consomes
Terei só o corpo em queda
Como ligeira aventura
Muito além de fartura fútil para muitos
Pois tu és a mais liberta abertura
Do que não posso ser
Numa vida turva, numa curva
Sou só homem
E a estigma do medo
É medo forte
Na vasta lamúria
Com os defeitos da luxúria
Breve sonho me espero.
Abismo
Quero absorver intensamente toda a tristeza do
mundo
As esperanças não alcançadas
Os filhos que não nasceram
O pranto das mães desconsoladas...
Quero sentir profundamente toda a dor
A dor de não ter amor, não ter paz,
Não ter futuro.
Pelo trabalho rotineiro de cada dia
A comida sem graça e fria
A desigualdade, a injustiça, o olhar distante,
A dor, toda a dor da infelicidade.
Quero aguardar a catástrofe silenciosamente
Com o meu cansaço estafante e descomedido
Pelo excesso das palavras, das mentiras, das
ilusões
Dos pesadelos, tantos.
O horizonte se distanciando... longe... longe.
Quero chorar muito... Quero chorar muito
Sem nenhum constrangimento
Sem parar, sem parar.
Quero ser tragado pela realidade
E me esconder na sombra da minha insignificância
Para que num momento distante – se houver,
Eu possa despertar para um mundo
Agradável e melhor.
Nilson Oliveira
Minha Boemia (fantasia)
Eu
caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos;
O meu
paletó não era bem o ideal;
Ia sob o
céu, Musa! Teu amante leal;
Ah! E
sonhava mil amores insensatos
Minha
única calça tinha um largo furo.
Pequeno
Polegar, eu tecia no percurso
Um
rosário de rimas. A Grande Ursa,
O meu
albergue, brilhava no céu escuro.
Sentado
na sarjeta, só, eu a ouvia
Nessa
noite de setembro em que sentia
O odor
das rosas, que vinho vigoroso!
Ali,
entre inúmeros ombros fantásticos,
Rimava
com a débil lira dos elásticos
De meus
sapatos, e o coração doloroso!
Arthur
Rimbaud
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Cartas futuras
Antecipo-me em ansiedade boa
Para receber-te em minha leitura
Seja sua ideia nua ou só ideia sua
Sendo sua é sua e minha
Abriremos caminhos para passearmos livres
Com as mãos dadas pelas letras cruas
Talvez salgadas com recheio de açúcar
Ou só açúcar que engorda-me de alegria
Minha caneta será sua
Meu papel como espelho para seu rosto, sua calórica doçura
Cumplicidade de amigos de escrita
Seremos só uma vida
Completando-nos em frases ricas
Sempre com verdade lírica
Em nossas cartas futuras.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Corpo-amor
Quando
caíres dentro de mim, serei descoberto!
Entenderás
como és compatível com meu corpo
Como meu
corpo não te rejeita
Ele te
afirma numa cama sincera
Converte
suas mazelas em ar puro
O teu
choro em mar calmo, maduro
Sua penitência
em lua singela
Te faz
corpo seguro
As
noites chegarão mais belas
Agora
com todo brilho e conforto
O repouso
do teu corpo no corpo que te esperas
Desconheço
amor que seja pouco
Ou corpo
amável que seja oco
Nesse
instante que meu corpo para ti, integra.
Lágrimas Ocultas
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Florbela Espanca
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Para outros olhos
Em nenhum momento a infância remete-me aos seus olhos
Nem aos seus trejeitos adoráveis
Você não está!
Não vejo o seu rosto nas lembranças
Não posso reconhecer-te por nenhum sentido
Sem dor de cabeça, sem insônia
Pois preciso falar da infância dos sorrisos
E você não encaixa-se no melhor de mim
Na minha criança.
Uma, nunca última!
Num desses acidentes do tempo
Voltaríamos a dançar
Quase parados no mesmo lugar
Agradecendo ao tempo
E eu estou paralisado
Você não pretende manter nenhuma distância
É a sua vez de provocar-me
De experimentar-me
Acariciar-me com um toque
Onde meus sorrisos arrepiados são apresentados
Eu dei o melhor de mim
E não vejo nada em volta
Temos tudo em tão pouco tempo
E quase nada temos de verdade
Mas nesse acidente que criei não vou programar nem mais um
segundo
Termina assim
Pois tudo afundou na realidade
E até na lembrança tudo tende a afundar...
E afundar.
E afundar.
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