segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Horário de fotografar.

Ela sai gradativamente de cada canto
Vagarosa, apaga-se por cada milímetro do chão
Silenciosamente educada para ser sutil no caminhar até as paredes
Sobe saudando o fim do dia
Estendendo a cortina de sombras pela sala
Faz funcionar os horários da minha casa
O dia escuro dá partida assim que meu café esfria
Está na hora de comprar o pão ou permanecer sob a cortina
Com meus olhos mornos numa outra fotografia
A mudança drástica do dia é registrada
Vejo a confusa percepção noturna da calma
Substituindo a derradeira calma vespertina.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Simples como um rochedo.

Geralmente suportas cargas ambivalentes
Geradas por todos os  tipos de sentimentos
Atravancadas por prazeres e tormentos
Carícias e tapas por horas e horas
Sem inclinar-se!
Subverte dores passadas
E exorbita-se em profundos túmulos horrendos
Constrange-se calado
Sorrindo por dentro
Duplicado para o bem e o mal do agora e de outrora.




sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ao início da dúvida.

Quem dera fosse inalterada
Tanto quanto inesperada
Sendo absolutamente conturbada
A primazia de qualquer caminho, de qualquer largada
Não posso embelezar as futuras fachadas do meu andar
E a consciência feito lixo? Mal maquilada...
Mas é contrariante para eu temer o início
Sabendo que a consciência também escapa
De uma análise de juízo, só prezando pelo prejuízo
Armadilhas que calculam-se nas fraquezas sem fachadas
Das íntimas às que confundem-me apenas como sábio enfermo de pele esgotada
É a minha doença minando e contaminando o mundo
É minha a doença? Sou eu moribundo, covarde, trágico e penoso?
É meu mundo minado e contaminado? Meu mundo é perigoso?
É todo mundo desequilibrado? Ou o mundo todo aniquila-se em conforto?
É meu o início da dúvida?
Ou a dúvida inicia-me de novo?










segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Para quando fores envolver-me num laço

Faça voz pequena
E não desfaça-se
Perdure a iniciativa na altura correta dos meus ouvidos
Pois sou perspicaz mediante tonalidade adequada
Sutilmente acarinho a pele que toca-me acarinhando
E por ela percorro cada curva com doses assimiladas
Alternando-te para qualquer velocidade, desafiando
Descartando limites para ações paralisantes e desenfreadas
Sem determinado roteiro específico eu sigo
Vago pelos caminhos dos arrepios
Assim meu toque poderá ainda mais impressionar-te com o desaviso
Onde mais um delírio ofegante da tua boca escapa
E quando quiseres ir além desse intenso ensaio preparativo
Poderás simplesmente agir fora do sexo clichê de outrora bastante
Para cada segundo de penetração um gemido estonteante
E que o calor cegue o nó que nos ata!
Ultimamente venho desejando-te em todos os cômodos da casa
Sendo válido até o quintal para uma tentativa de coito explícito
O espaço físico delimitar-se-á com o nosso improviso
Interessando-nos a vontade, mais nada!
Nesse momento eu não rogo, nem sou rogado
Deixo livres as incitações dos nossos corpos totalmente colados
Para que os mesmos façam-se morada consentida.
Tanto faz o tempo ou mais um gozo como garantia
Fora e dentro da sua buceta úmida e macia
Meus dedos, minha língua, minha boca, meu pênis
Todo seu perfume íntimo sendo exposto em mim suavemente
Deleitar-me-ei contente e um pouco cansado
Deleitar-me-ei profundamente em fino trato
Todo melado, muito bem melado pelos seus lábios mais carnudos
Só quero um laço que provoque e supra em absurdos
Essa profanidade sincera.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Confusões (ao sol que não brilha)

Trago triste a notícia
Que deves saber enquanto par de uma ilusão
Talvez eu seja mais sujo que o chão
Em matéria de ausência ou limpeza física
Todos os fracassos são compilados em dor
Compreendidos na agonia
Tenho tanta dor que minha compilação é mesquinha
Nada acima da compreensão é caridade
Fez-me sombra para a crueldade
Ilógica é a condenação do massacre, covardia
E para o restante da crueldade, fiz-me mais sombra nítida
E o bom caminho na sombra confirma-se
Sem o gabarito que perpetua o êxito
Sou mais coeso que todo discurso apático de alegria
Sou mais simples que o nascimento do dia
E sua cerimônia para o astro grandioso
Repleta de sentimentos e servis confortos
Traga-me o tragado
O sabor do descaso em sua forma sinistra.

domingo, 29 de setembro de 2013

Vitimado.

Atrai-me pelo ímpeto surpreendente
Ação repleta de covardia comigo
Onde encaixei-me frágil bobo
Curado do fracasso amedrontado da vida
Da velha fragrância de mofo, da alergia
A pele macia incitou-me ao delírio
Num momento desastrado caí
No próprio mar de palavras sutis
Permanecendo bobo
Nadando feito louco longe da areia
O olhar afável golpeou meu raciocínio
Tonteando-me estranhamente
Sua boca comportava-se surrealista
Desconstruiu-me
Fiquei ali parado,
À mercê dos desejos mais vaidosos
No breve toque fui sensitivo exorbitante
E os choques que sofri derrubaram-me longe
Partes minhas congeladas em frio homicida
Observaram-te sair com naturalidade
Deixando a mesa - cena do crime que cometeras.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Traços

Inquietações elevam-se da sutileza do seu rosto
Marcando-te a face com conflitos passados,
Caprichados em traços permanentes
Tens a vanguarda de sonhos atraentes
Carregados em machucados profundos
Tens o mundo,
A lembrança costurada na agulha
Pouco pano para cobrir a carne crua
Por onde jorra sua dor
Pisando na poça da memória
Deixarás pegadas para um exemplo de futuro
Onde não pudestes caminhar.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Proibido!

Veio em contradição ao tempo solidão perdurável
E flerta maduro com o dissentimento social da barganha
Ora banal pela futilidade de classificar o desejo carnal
Ora verdadeiro carnal
Posto frágil e sem condições de rejeitar!
Esse sim, sem desejo de classificar
É só da vontade que dá gosto na boca
E a boca no sonho de abocanhar o corpo,
Esse envolto, pois é a carne que produz a saliva da boca do outro
E a língua úmida congela teus bicos distraídos
Agora possuídos,
Chamando-os para o choque de gozo
Gozando em cama estranha
Uso da imaginação vaticinada
O arrepio por debaixo do terno tradicional que vestes
A calça levanta!
Mesmo sendo proibido o seu movimento de felicidade
O corpo treme de saudade no banheiro
E o banho para ser limpo na cama da mulher amada,
Torna-se calma
Por ora calma
Combate a vergonha de amar outro corpo
Tens a vida morta na realidade
E um monte de vida presa na mente condicionada
Condena a ereção feroz fora de casa
Até tomares coragem suficiente para desejar tudo de novo.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Refluxo

Fechando a boca e propondo cativeiro
Não meças as palavras cruas no nível da sua vergonha
Por apenas conheceres a vergonha e o medo,
Vomite-as com o sangue!
Suje o chão de frases vivas em vermelho
Suje a ponta da língua para degustar-se
O ranço que provarás das ideias fora da validade
Retomam o contexto de não saberes do que és feito
O estômago vazio de coragem despertado do bom funcionamento
Suor frio regulando seu desespero
Arrepios do corpo que oculta a própria fétida realidade
Agora expõe-se para o ataque da moralidade
Apresentam-se olhares sedentos para o julgamento
Onde seu mau cheiro verdadeiro é condenado
É nesse amargo que a incitação revela-se definitivamente podre
Atente ao fato podre de reconhecer-se dentro dessa parte
O interior cheira tão mal quanto a delicadeza das boas posturas
E a deturpação do respeito próprio em cobranças imaturas
Quando submeteres a amarrar a boca com palavras mansas
Talvez o banheiro seja o limite para a liberação do seu cheiro antissocial
Trazendo-te de volta ao cativeiro.

Bom dia

Tudo em plena paz
Capaz de organizar minha íntima calmaria
Levar em ventos atentos
Os acalentos dos pacíficos momentos
Que cantam em ares de mar por toda brisa
Ergo-me como pipa
Para fotografar minha ilha
Circundada pelo azul aceno
Do bom dia de cada dia.

sábado, 14 de setembro de 2013

Oferta de mar.

Não foi pelo confronto
Tampouco consenso
Nem pela parcimônia que aprendi com o tempo
Nos tempos que a barganha circundava
Era quase vaidade, assustava
E a brincadeira de ser cúmplice não seduziu meu comportamento
Assim, nada de supérfluo sustento
Ou pratos além das bocas da minha casa
Perco sim!
A afinidade conquistada
E as tentativas de purificar-me, trancafiando-me em breves plácidos momentos
Não tenho mais tempo de conter-me
Contanto fiz-me fraco perante a oferta de mar
Onde logra todos os tipos de tormentos e brevidades raras.

sábado, 7 de setembro de 2013

Julgamento frio.

Pensei, não disse, guardei.
Durante todos os dias que você reinou na minha mente...
Em cada dia que tocou-me para continuar reinando...
Em momentos que seu reino foi encanto...
Noutros profundo desespero, medo!
Foi nele que sempre adentrei meu sonho, que só foi sonho
Dentro de um reino que não era reino, acordando-me
Ganhei disso a insônia, adoecendo-me
Busquei na tontura, um descanso
Um novo reino, um novo sonho
O mesmo gosto, reconheço!
Pelo vinho que eu bebo, julgue-me, eu até deixo
Ainda que as amarguras enganem
Mas não diga que eu não amo
Eu desapareço!
E posso aprender a desamar.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Nunca Mais.

Que é feito de meu sonho, um sonho puro
Feito de rosa e feito de alabastro,
Quimera que brilhava, como um astro,
Pela noite sem fim do meu futuro?

Que é feito deste sonho, o cofre aberto
Que recebia as gotas de meu pranto,
Bagas de orvalho, folhas de amaranto,
Perdidas na solidão de meu deserto?

Ele passou como uma nuvem passa,
Roçando o azul em flor do firmamento...
Ele partiu, e apenas o tormento,
Sobre minh’alma triste, inda esvoaça.

Meu casto sonho! Lá se foi cantando,
Talvez em busca de uma pátria nova.
Deixou-me o coração como uma cova,
E dentro dele, o meu amor chorando.

Nunca mais voltará... Pois, que lhe importa
Esta morada lúgubre e sombria?
Não pode agasalhar uma alegria
Minh’alma, pobre morta!

                                                      Auta de Souza

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Furto.

Em qualquer ausência que provocas
Ou no triste fato da sua ausência provocar-me agonia
Ou depois de tanta agonia você permanecer ausente e provocativa
Você é permanentemente minha
Só minha quando eu trato-me com descaso
E da rotina ausento-me
Ofuscando-me do dia por uma enfermidade duvidosa
Sinto-te sim
Acariciando minha vida com pauladas furiosas
E há quem diga, pensando conhecer-me:
Ele gosta!
E se não gostasse, não repetiria!
E assim o furto acontece
Mais um sorriso, por mais curto, desaparece!
E não há câmeras para registrar a ação bandida
O ilícito drama que condena minha alegria

Não pode ser crime atrás das paredes frias da minha casa.

domingo, 18 de agosto de 2013

Solitário

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-- Velho caixão a carregar destroços --

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


                                                      Augusto dos Anjos

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Traição

Traí uma parte de mim
Aquela que destaca o humor
A que organiza toda a tragédia
Que faz dela teatro sublime
E tem costume de decorá-la
A que faz ganhar e ganhar
Perder e perder tempo
A confusa dose dupla do momento
Os gestos calculados de quem ama
De quem quer ser amado
O desejo de ser modelado e talvez mais bonito
Repetido e repetindo
Eu traí minha lembrança para entender o que foi dito
Traí até quem ama e quem foi desamado, como eu
Traí convicto.



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quando vier a Primavera...

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.
 


                                                    Alberto Caeiro

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Parte hedonista

Encontro vida farta em motivos desequilibrados
Sinuosos são todos os encontros, prazer sexual!
Quando o beijo torna-se sexo descontrolado
E o corpo enrijece os desejos mais que a mente
Momentos de estratégia para dormir acompanhado
E banhado pelo suor de outro corpo
Eletrificado pela língua companheira da noite
E ter a barba fazendo atrito em áreas mais quentes
Tanto atrás quanto na frente
Em intensos movimentos reprogramados para o ato
Exercito meu vocabulário proibido
Minha agressividade permitida
Assim como todos os músculos do meu corpo
Não há nada de novo
Há somente novo gozo em novo gozo
Uma vida plena de experiências condenadas
Mas concomitantes em viver.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Alegria

Movimentos que faço desmedido
Acidentes que provoco pelo aliviado desaviso
E pelo momento da façanha

Desvio
Desmolde
Desafio

Desconfio da tristeza
-Do poço, da carência,
Do amargo, da ausência-
Desmato!

Desfaço no frio
O descompasso do humor
Desprendo e desaprendo
Desconfio da dor, descolo!

Desisto
Desvairo
Desminto
Descasco!

Desconsidero a falta de alegria
Desconecto a covardia
Ao caso, descaso!

Cubro e descubro
Coberto ou desnudo
Desmonto!

Mando e desmando
Mudo e desmudo
Cuido e descuido
Ato e desato
Os maus nós, destruo!

Amado eu destravo
Destravado eu desarmo
Desarmado eu desculpo
Desculpado eu desrugo
Desrugado eu descanso

Alegre e descansado!

Tem calor, tem vida

Euforicamente apaixonado
Forte emoção e gosto
Alvoroço e ventania
Tem calor, tem vida
Banho do conforto
Exagero de alegria
Ataque de carisma
Arrepio no pescoço
Tremedeira atrevida
Mente quente e despida
Pensamento solto
Lábios com tinta, palavras coloridas
Papel pelo corpo
Poesia viva
Romântica terapia
Cura o desgosto
Cura da vida.

O verde mais bonito

O verde completa sua beleza
Seu olhar é um toque de felicidade
Mata a saudade, o estresse e a tristeza
Tal realidade quero que o mundo veja
E desconfunda um tantinho
Ame um tantinho
Com essa imagem de amor incalculável
Com essa leveza imensurável
Tanto carinho
Tanta clareza
Habilidade de produzir sorrisos
De doar riquezas
Alimentar vaidades
Emagrecer certezas
Transformar caminhos
Suavizar as perdas
Com esse doce apaixonável
Como beijo imaginado
Como sonho de grandeza
Sem problemas, sem castigos
Só você implanta em mim
Um ideal de consciência
Em verde completo de beleza
Em sorriso completo de amigo.

sábado, 6 de julho de 2013

Agonia e transe

Absurdamente quieto em calma
Penetrado pelo tom grave da falta de som
Tanta agonia em retratos da família destruída
Que dança seu surto morto no chão
Distorcido como ser humano abandonado
Ainda rasgado pela tragédia recente
Seus olhos calejados produzem sangue condenado
E não há gota de sangue aparente
Contudo tens um olhar admirável
Farol de dor reluzente, sem luz
Alcança a sombra mais fria da vida
E morre vivo sem cruz
Mais um dia de morte garantida
Menos garantia de uma nova vida decente
Ele descansa sobre a vida suicida
E já sonha com a morte novamente.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Rei e rainha (na cama)

Feito um leão de patas mansas, deitei
Com o corpo mole na sua cama e no teu luxo carinhoso
Pele acolchoada no meu rosto
Entreguei-me mediante um banho de língua molhada
Percorrestes vagarosamente minha selva arrepiada
E não parastes...
Fostes além do meu instinto exagerado
Fazendo-me leão de novos instintos
Animal dengoso em colo calmo
Acarinhado e acalentado
Extasiado pelo calor gerado do atrito que provocamos
Um leão de alegria estampada não se engana
Rendeu-se à leoa que ama, sua rainha.










quarta-feira, 3 de julho de 2013

Confesso que...

Envergonho-me sim
Por ser mais covarde, idiota e mesquinho
Mais orgulhoso, vaidoso e limpinho
Mais triste
Mais sozinho
Mais calado
Mais preocupado com meu celular, menos amigo
Mais descartável que meu celular, mais inimigo
Menos temperado e degustado
Menos talentoso e criativo
Mais comprometido
Mais ocupado e profissional!
Mais fraco, mais limitado
Mais convencido, mais errado
Menos coitado, menos bonito
Sou mais ou menos algo definido
Muito mais adulto envergonhado
Muito menos criança engrandecida,
Mais e menos na vida
Mais e menos do futuro e do passado.



domingo, 30 de junho de 2013

Catarse

É sobre o mérito alcançado pelo drama,
Que me deito!
Ouvindo em prantos tua ressonância
Moro abrigado no teu peito
Assim como moras em meu peito
Fui levado ao encontro do lar quente
Da saliva arrepiando minha mente em abundância
Ficarei aqui como uma planta
Para crescer cuidado em boa cama
E fazer do seu jardim, meu farto leito!
A visão desse momento de grande importância
Brilha com forte tom de confiança
E me agrada cada palavra, cada beijo
Hoje é o dia para sermos refeitos
Refazendo a felicidade
Do mar alegre que nos encontra
Às terras confusas que conheço.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Outros Eu

Eu que fui jovem, também fui outro
Em meio a tantos outros
Fui outro no meio de vários que sou hoje
Fui eu em outra idade
E com mais idade serei eu mais velho com mais outros ainda

Serei outro com cargas de mim
Serei outro com cargas de outros
Continuarei sendo algo de outros pela vida

E eu que pouco sou só de mim
Muito e pouco de poucos de mim

Muitos outros fazem-me outro
Outros ainda mais parecidos comigo
Outros que eu faço novos em mim.
Assim refaço-me!

sábado, 15 de junho de 2013

Convencimento

Queria eu
Que meus dotes verbais enlaçassem sua preguiça
E sua vontade domiciliar
Sem nenhum esforço,
Que meus dotes verbais levassem um bom gosto
De vinho para causar instiga
Que fossem suavemente irrecusáveis
Tinto, tinta!
O que mais marcar seu pensamento
Que meus dotes verbais causassem acarinhamento
Não mais fadiga
Despertá-la para uma noite bonita
E o barulho passando longe
Bem longe desse acontecimento
Queria eu
Que meus dotes verbais conseguissem
Mesmo com muito esforço,
Você.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Você.

O que é você?
Todos dizem ser um mau capricho da minha visão
Uma falha na minha percepção
Como uma admiração destoada do real
Mesmo assim,
Tenho uma vontade estranha de colar meu olhar e permanecer calado
Guiado apenas pelo seu rosto
Um alvo rosto em perseguição
Tens meus olhos teleguiados para a sua ação
E seu relaxamento
Tens meus olhos para seus momentos
Que deixo bem guardados
Aguardo sempre os movimentos labiais que geram teu sorriso
Distante a minha imaginação ouve tua voz
Mas não podes ouvir-me pensando agraciado
E não posso ouvir-te de verdade.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Boca, pescoço e cola.

Um pescoço perfumado pedindo boca
E minha boca cola
Cola esquerdo, cola direito
Cola a boca na boca
Boca no beijo
Beijo no beijo
Beijo na boca
Contorça mais, tem mais boca
Tem mais beijo
E tem mais cola.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Nas minhas nuvens

Pareço leve, inflamado
Um delírio no ar
Aqui não há desculpas
Não há lugar
Nem há voz
Descubro tudo e não toco-te a mão
Desconfundo tudo e não peço-te nada
Vejo-me abrigado nas nuvens
Abraçado como numa casa de infâncias
Abundante flutuação das infâncias
É ótimo recordar...
Respiro partículas felizes no ar
Descanso meu pulmão cansado
Sou movido pelos ares mais ousados
Um passeio por cima do fracasso
E da multisolidão
Meu corpo quente faz-me ficar aqui
Flutuando minha mente finalmente sã
Minha mente finalmente calma
É sublime meu alívio e meu comportamento
Mediante a altura
Perdi o medo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Fim

Empurre-me
Sem intervir gravemente em minha queda
Sinceros sejam teu ato e tua ética
Provocando-me a cair mais rápido
Sei que estou pesado com meus sapatos delinquentes
Onde pisei incoerentemente no passado
E essa calça manchada de preguiça...
Prefiro levar minha camisa mais usada
Deixo suja minha camisa mais bonita
Assim levo minha pouca vaidade já vestida
Para reconhecerem-me de fato
E para reconhecerem-me de fato,
Não falo do fim dos fins da vida
Deles não faço ideia
Preocupo-me com o fim das agonias.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Insuficiência.

Ter o algoz que amou em comunhão
-É triste o desejo de não que sentirás-
E do que vale a mudança de condição?
Assim revelo-me algoz de mim
Na abertura íntima indiferente
Predicando meus olhares antigos
Antes nada latentes,tudo decorado
Pincelados pelo encantamento
Agora tormentos, agora atormentados
Desprovido entendimento
Assim prendo-me em ligeiro claro
Tudo fingimento?
Sim, sinto ser, sinto-me enganado
Mas não encontro meu ser assertivo
Talvez também desiludido
Também monologado nessa crise consciente
Depois da remodelagem do pensamento
Continuo errando o mesmo lado
Destampando os mesmos furos
Causando-me enchentes e inchaços
Falta-me uma crise competente
Que acabe, finalize, mate
Meus algozes mais doentes
E liberte, renove, qualifique

Meus algozes mais cansados.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Passagem pelo desencontro

Não vejo pautada a finalidade disso
Nem onde encontro o fim vejo a finalidade
Perdurei em tanta falta de vontade
Em tanto breve alívio
Em belos discursos vazios
Que retomo pobre de espírito
Disposto a ter vaidade por indolência
De fato assim também sou maduro
Sou quieto e inoportuno
Belo e quase mudo
Sou recheio de vento
Mesmo sem ter a casca doente
Adoeço-me com o mal tempo
Nesse tempo imaturo
Antes da alvorada e da apatia
Dê-me vento e preencha-me por dentro.
Algo nisso pode tornar-se adulto.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Oculto.

Isso ou aquilo
Do sofrível ao duvidoso
Fiquei morto por um tempo

Pelo sonho grandioso
Por sentir-me pouco
Amei calado
E amei caloso

Contive-me sendo impróprio, defasado
Atormentado pelo sonho e seu descrédito
Homem tenro, indecifrado

Fui responsável
Responsabilizado
Sem respostas

domingo, 19 de maio de 2013

Dez versos que não dizem muito.

Confusão
Que sinto forte em clarões profundos
Quando a pele sente
E a minha psicologia é fraca
Minha mente dormente, penso ser demente
Mas também penso ser inteligente e confundo
Não sei se posso pensar de forma própria
Sei que não é de forma clara
Mas a deforma é clara
Clarões profundos que minha pele sente em dez versos que não dizem muito.








Em colo morno.

Sou chegado a carinho
A colo morno
Cafunés e beijos são bem-vindos
Recebo-os com semblante de carinhoso
Um abraço,
Teus braços,
De repente apaixonado
Apaixonando-te , apaixonando-os
Apaixonados, entrelaçados
Afogados em carinhos de bom gosto
No seu cheirinho, entrego-te minha mania
Ser homem acarinhado.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Campo hostil.

Aos que pretendem a troca
Devaneios líricos por moeda
Procurem ofertas obscenas
Fatos de não realidade para vocês
Peguem a moeda e troquem pelo seu nada
Tuas riquezas de batatas, vejo só batatas
Da batata dourada não come o mesmo amigo
Pois nenhum amigo come em  prato alugado
E quem fica é empregado
Se o caso for,
A procura de terras para defecarem os bois do açougue
Só a tua merda fede
E nada mais.




quarta-feira, 15 de maio de 2013

Gata carinhosa.

Só penso em teu corpo para lavá-lo de língua
Com a cara nos teu pelos
Não paro de cheirar-te feito vício
Solto os miadinhos que desejas e aprecia
Sou gata no cio que provocas
Das lambidas que dou na sua orelha também sinto o choque
Fico colada
Espero a parada cardíaca toda molhada
Tua mão nos meus cabelos domina-me
Mas penso dominar-te
Só você, a droga, engana!
Meu corpo arrepia e paulatinamente esfrega-te
Não segure o gozo
Sou sua gatinha

                                                         Rosa Carvalho


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Olhar

Teu olhar é chama
Me chama
Pra dentro
Pra você
Queima roupa, queima pele
Queima a cama
Chama e queima tudo
É forte para incendiar minha cabeça
Chama para entrar
Chama para queimar
Chama que não recuso
Calor que eu procuro
Dentro de ti é ainda mais quente
Chama pelo nome e pelo corpo
Chama de louco e de safado
Chama pra mim
Me chama que eu queimo e sou queimado.



domingo, 14 de abril de 2013

Além da melodia corporal

Vi além da sua melodia corporal
- Vi os bicos dos seus seios
Tua perna
Vi a perna que balançava inquieta roçando-me a coxa
Uma louca
Uma delícia
Sei que nada prometias
Mas a tua língua fazia-me esquecer
E por dentro eu vi tudo
Mais fundo e mais fundo
Um calor profundo
Levitou-me ao céu
E fez minha pele derreter
Minha razão quebrada permitia
Sua mão cheia de prazer
Abraçando-me e depois colando a boca
Pedindo algo para beber -.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Pedido atencioso

Se perderes os sorrisos
Não encontrarás por mais corajosa,
Sua parte sublime
Sua entrada apoteótica para os olhares caídos
Peço-te que sejas mais forte e agarre-os
Como comida para sua vida
Enchendo-se de fartura delicada
Não precisarás dizer-me que tudo ficou escuro
Teus sorrisos superam
Todo e qualquer escuro
Nas confusas nuvens que molham
Poderás lavar teu sofrimento agudo
E carinhosamente matar o seco da garganta
Brutalmente apaixonada.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

Que fique entre nós.

Vou contar-te
Mas que fique entre nós
E que em nós fique tudo
Para que longe fique todo o abalo
Com distância segura dos medos
Com distância dos descasos
Acasos que culparemos
E as invejas do tempo
Tratando-as como fonte de aconchego
E cuidado dos agrados
Só dos agrados que merecemos
Dos nossos, nossos momentos
Feito amor
Feito amantes e amados
Onde poderemos respirar
Fazendo calmaria
Com o cheiro das matas
A cor bonita
Como uma caminhada pela alvorada
Conhecendo o primeiro calor do dia
Onde ali sentiremos
O vento, a nossa casa
O nosso templo
Levando-nos à nosso caso
E poderemos desapertar o que dói
Aliviando-nos por dentro
A pura amizade que temos
O descanso necessário
E que fique só entre nós
Em nosso canto

Eu já contei...

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Aqui, no fundo...

Aqui! Vejo-me sentado, quieto
Luz das janelas para mim
Não estou aberto, estou escuro
Sinto-me sombrio
Faço-me pouco uso
Dor nas costas e irritado
Afogado em mar profundo
Mar do abrigo, velho amigo
Vendando-me da verdade, do ar puro
Tenho coragem, tenho!
Grande para aceitar parado
Pegando o curso errado e afundando
E a tosse que não passa, o desconforto
Não é vaidade do meu corpo
Nem dos males que envolvo
Tampouco choro convencido
Pode ser falta do seu canto
Onde fazes a falta não possuo mais nada
Só engano.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Vão momento

No vão é vida ainda
E descarece de luz da matina
Para o além acomodar fora das paredes
Invisível no céu e no mar
É desfruto do quase morto
Retrato sem rosto
Cama sem corpo
Vácuo valioso em grande escala de nada
É vida de algo que precisa do vazio
Do concerto de silêncios destemidos
Não é cova nem abrigo
É a dormência do alívio
A falta de chão do voo inseguro
Por nuvens e soluços infinitos.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Tragado e abandonado

O homem dali sumiu aos poucos
Antes de cabeça erguida
Agora pelos cantos das ruas
Contando passos no escuro
Desencantado
Ele já cantou pelas mesmas ruas
Desabrochando sorrisos escondidos
Semeando sorrisos estendidos
Mas ele foi parando
Desacelerou seus motivos
Parece que seu combustível acabou estranhamente
Hoje ele arrasta-se cabisbaixo
Quase sem rosto
Sem desejo
Sempre cansado
Um homem fraco
Antes parrudo de alegria
Hoje desidratado
Engolido pelos tormentos do dia
Tragado como um cigarro
E depois abandonado pelo descaso.

terça-feira, 12 de março de 2013

Túmulos


Onde a minha razão acaba,
É meu túmulo sem lápide
Indigente que trouxe a carne
De um corpo fracassado, frio e desmoralizante
Onde a minha emoção acaba,
É meu túmulo de verdade
O mesmo homem que trouxe a mesma carne
Do mesmo corpo fracassado, frio e desmoralizante
Limpo, costurado, enfeitado e condicionado
Em trabalho caro, artístico e demorado
Com o cortejo mais iluminado
E barulhento dessa multidão dilacerante
Seja para túmulo caro ou túmulo pobre
Morte da razão ou da emoção mais forte
Os términos irão com a mesma carne
Para a mesma terra de outras mortes.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Fragrância


Quero para perto tudo antes demasiado sonho
Longínqua a determinação prévia
Quero bactérias, quero lama
Uma nocividade natural para descontaminar minhas andanças
Uma casa nos ventos mais arrepiantes
Uma cama de grama nas montanhas
A chuva periódica e fria
Bocas de lobos em harmonia
Leis francas
Toda fragrância do chão folheado
Ser meu próprio casaco
Reprotegendo-me a cada passo dos pontos fracos
Antes da pólvora humana aproximar-se
Resguardo o teu sonho de criança
Nesse sonho acalentado.


quarta-feira, 6 de março de 2013

Descrição da falta.


O que eu sinto pode cobrir-te
Pode liberar-te desse desencanto
Da tua angústia que persiste amedrontá-la
O que sinto pode levar-te calma
Pode ser o aquário dos seus sonhos
A viagem de balão que aguardavas
O mar que nunca visitastes
Todo o ar que falta para respirar aliviada
Os campos, flores, cores...
A chuva, frio, sabores...
Posso apresentar-te de tudo
Para que tudo seja diferente
Não consigo suportar você distante
Essas promessas são para você presente
As fantasias fazem parte do meu mundo
Enquanto a sua ausência permanecer frequente.




quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Nosso blues

Solista tu viraste quando entregastes ao meu recital,ao meu musical
colocaste sobre ele um único instante a tantos festivais
pela bela nota soluçastes
pela minha prosa se apoiastes
pelo carinho do som da minha voz se completou
como acreditar que és um músico se nunca mais tocastes
como esperar o som do piano se foges para tocar o velho blues
mas em outros simples solos me tocastes
e sabes bem do que somos capazes de
agora em diante um novo tom.



                                  Renata Celli

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Vinho inútil

Não sei medicar-me nessa noite
Minha doença atinge além do meu corpo
Mesmo banhado pelo meu vinho predileto
Não consigo fazer-me outro

Sinto-me um bicho acuado
Pedindo consolo
Estou mais preso que solto
No meu próprio desconforto

Carregarei meu choro
E dele hidratar-me-ei
Com mais choro

Logo será logo
Enquanto isso, continuarei
Até ficar vazio


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

À bebida forte

Para tanto que me consomes
Terei só o corpo em queda
Como ligeira aventura
Muito além de fartura fútil para muitos
Pois tu és a mais liberta abertura
Do que não posso ser
Numa vida turva, numa curva
Sou só homem
E a estigma do medo
É medo forte
Na vasta lamúria
Com os defeitos da luxúria
Breve sonho me espero.

Abismo


Quero absorver intensamente toda a tristeza do mundo
As esperanças não alcançadas
Os filhos que não nasceram
O pranto das mães desconsoladas...
Quero sentir profundamente toda a dor
A dor de não ter amor, não ter paz,
Não ter futuro.
Pelo trabalho rotineiro de cada dia
A comida sem graça e fria
A desigualdade, a injustiça, o olhar distante,
A dor, toda a dor da infelicidade.
Quero aguardar a catástrofe silenciosamente
Com o meu cansaço estafante e descomedido
Pelo excesso das palavras, das mentiras, das ilusões
Dos pesadelos, tantos.
O horizonte se distanciando... longe... longe.
Quero chorar muito... Quero chorar muito
Sem nenhum constrangimento
Sem parar, sem parar.
Quero ser tragado pela realidade
E me esconder na sombra da minha insignificância
Para que num momento distante – se houver,
Eu possa despertar para um mundo
Agradável e melhor.

                                                      Nilson Oliveira

Minha Boemia (fantasia)


Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos;
O meu paletó não era bem o ideal;
Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal;
Ah! E sonhava mil amores insensatos

Minha única calça tinha um largo furo.
Pequeno Polegar, eu tecia no percurso
Um rosário de rimas. A Grande Ursa,
O meu albergue, brilhava no céu escuro.

Sentado na sarjeta, só, eu a ouvia
Nessa noite de setembro em que sentia
O odor das rosas, que vinho vigoroso!

Ali, entre inúmeros ombros fantásticos,
Rimava com a débil lira dos elásticos
De meus sapatos, e o coração doloroso!

                                             Arthur Rimbaud


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Cartas futuras


Antecipo-me em ansiedade boa
Para receber-te em minha leitura
Seja sua ideia nua ou só ideia sua
Sendo sua é sua e minha
Abriremos caminhos para passearmos livres
Com as mãos dadas pelas letras cruas
Talvez salgadas com recheio de açúcar
Ou só açúcar que engorda-me de alegria
Minha caneta será sua
Meu papel como espelho para seu rosto, sua calórica doçura
Cumplicidade de amigos de escrita
Seremos só uma vida
Completando-nos em frases ricas
Sempre com verdade lírica
Em nossas cartas futuras.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Corpo-amor


Quando caíres dentro de mim, serei descoberto!
Entenderás como és compatível com meu corpo
Como meu corpo não te rejeita
Ele te afirma numa cama sincera

Converte suas mazelas em ar puro
O teu choro em mar calmo, maduro
Sua penitência em lua singela
Te faz corpo seguro

As noites chegarão mais belas
Agora com todo brilho e conforto
O repouso do teu corpo no corpo que te esperas

Desconheço amor que seja pouco
Ou corpo amável que seja oco
Nesse instante que meu corpo para ti, integra.


Lágrimas Ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

                             Florbela Espanca

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Para outros olhos

Em nenhum momento a infância remete-me aos seus olhos
Nem aos seus trejeitos adoráveis
Você não está!
Não vejo o seu rosto nas lembranças
Não posso reconhecer-te por nenhum sentido
Sem dor de cabeça, sem insônia
Pois preciso falar da infância dos sorrisos
E você não encaixa-se no melhor de mim
Na minha criança.








Uma, nunca última!

Num desses acidentes do tempo
Voltaríamos a dançar
Quase parados no mesmo lugar
Agradecendo ao tempo
E eu estou paralisado
Você não pretende manter nenhuma distância
É a sua vez de provocar-me
De experimentar-me
Acariciar-me com um toque
Onde meus sorrisos arrepiados são apresentados
Eu dei o melhor de mim
E não vejo nada em volta
Temos tudo em tão pouco tempo
E quase nada temos de verdade
Mas nesse acidente que criei não vou programar nem mais um segundo
Termina assim
Pois tudo afundou na realidade
E até na lembrança tudo tende a afundar...
E afundar.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

É o Estado das coisas

Talvez em vida vejas sempre os pássaros
Voando, voando e voando
Talvez queiras juntar-se a eles num voo
Apenas num voo
Sabes que não poderá fazer
E que as asas não são para você
Mas sabes quais asas são as que tu desejas?
Se desejas...
As que provocam os sonhos?
Ou as que destroem os sonhos?
Sabes que não é preciso voar
Não é possível...
O que queres afinal?
Um Estado das coisas que o permita voar?
Ou não quer nada que não saiba lidar?
Em vida precisarás do sonho de voar
Muito mais do que o sonho de ficar
Mas não pensas apenas em observar do chão
Já os pássaros
Eles simplesmente voam
E quando sonhas com a sua liberdade como num voo
Você simplesmente sonha.



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Para quando acordares sem música

Primeiramente abrir as janelas
Deixar entrar, pousar, tocar...
Num canto logo se acomodar
Fazer um café para conversar
Promover a canção...
Um solo de saudade
Um refrão bobo
Sorrir por dentro do riso frouxo
Comer bolacha e pão
Rimar com o tempo...
Transformar, transportar, musicar...
Afinar a manhã no tom da manhã
Desafinar tristeza
Semear só nossa canção...
Tu gostará
O amigo te acompanhará
Será simples e vais continuar...
O dia começará assim
Com luz, café, comida, poesia, música, amizade...
...conforto, simpatia e celebração
Promulgar essa canção para cada manhã
Condenar o silêncio
E o cuidado em abrir as janelas amanhã de manhã.