sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O bêbado


Depois de alguns dias bebendo cachaças baratas, um homem segue na luz do dia atrás de sua nova companheira, é um novo tipo de procura e de encontro, geralmente ele espera, mesmo que ansioso, a lua chegar para saciar algo dentro de si, mas o controle sobre seu corpo e sua mente está enfraquecido. É de cachaça que ele precisa, nada mais. As expectativas, arquitetadas com zelo, afundaram-se em dramas confusos, sem soluções objetivas. E ele nunca mais retornaria à sua residência, e assim passaram-se anos.
As concretizações tão sonhadas não chegaram, o carisma que o diferenciava de muitos, afundou nos decorados copos dos bares por toda a cidade, e uma vida que já foi plena em variados sentidos e momentos, tornou-se apenas pano de fundo para a tragédia.
Vê-lo caminhar remetia a ideia de pobreza fúnebre e irreparável, um caso clínico, crônico e sem cura. Não havia mais vontade própria que o levasse a iniciar um processo de reparação e renovação tão desejado pelos familiares – os que ainda lembravam-se do seu sorriso matinal que arrancava gargalhadas – e ex-namorada, essa que não sabia mais se ainda tinha algum vínculo, que não fosse tristeza, na vida perpetuamente desfigurada do agora, bêbado deprimente e fétido.
Os vizinhos só o direcionavam a palavra aos gritos, com ofensas desumanas, quando ele chegava minutos antes do nascer do sol e caía nas calçadas alheias bloqueando a saída dos carros das garagens. Cenas desmoralizantes repetiam-se diariamente, aqui e ali, envolvendo fulano e ciclano com o bêbado mal cheiroso. Para onde vai essa alma senhor? Perguntava com tom de superioridade, um velho amigo de copo que conseguiu controlar o vício depois de começar a frequentar a igreja protestante do bairro.
A vida do homem que entregou-se à bebida tornou-se exemplo de derrota, imoralidade, descrença, fraqueza, sujeira e mais diversos adjetivos infames, uma verdade sobre o que acontece com quem não tem Deus ou dinheiro, ou não busca ambos.
Os olhares das crianças claramente hipnotizavam-no. Mas num domingo bem cedo, um casal e seu filho estavam na praça de um bairro muito tranquilo, a criança chutava a bola para o pai e vice-versa, quando o brinquedo foi parar perto do homem mais indesejado da cidade. Aproximou-se a criança sem nenhum tipo de reação repressora e perguntou ao desvalido ser algo verdadeiramente intrigante:
- Você quer tomar banho na minha casa?
O homem sorriu depois de uma década sem mexer a boca - foi tão espontâneo e bonito - , e quando preparava-se para responder, o pai da criança veio correndo enlouquecidamente, com olhar de bicho, jogou o filho nos braços, cobrindo o rosto da tão amada cria e resmungando disse:
- Nunca mais aproxime-se dele, isso não é gente!
O bêbado ainda sorrindo ouviu as palavras doutrinadoras do pai do pequeno menino como uma rajada da metralhadora mais potente.
E seu corpo foi encontrado sem vida na manhã seguinte fedendo um pouco mais que de costume. 

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